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  • Sérgio M. Botelho Júnior

Padre Haroldo: “Geralmente, quem se dedica a comunidade terapêutica é honesta e trabalhadeira”

Nesta terça-feira, 3, o Portal Imagineacredite traz uma entrevista exclusiva com o centenário padre jesuíta Haroldo J. Rahm SJ. Ele é considerado o fundador da primeira comunidade terapêutica no Brasil, inicialmente denominada de Fazenda do Senhor Jesus.


A obra foi resultado do seu amor e abnegação à vivência da palavra e ao serviço dedicado a Jesus e sua mãe Maria. Por isso, seu trabalho terapêutico se expandiu e tornou-se referencia em todo o mundo. Tanto é que o Instituto Padre Haroldo já foi considerado uma das melhores CTs do mundo.


Contudo, esse título para o padre é fruto de um trabalho desenvolvido segundo as vontades de Jesus, junto todos aqueles que estão em situação de vulnerabilidade social. Por isso que além de trabalhar com adultos dependentes químicos, a obra também atua junto as gestantes drogadas e desenvolve um trabalho de prevenção junto às crianças brasileiras.


Vale lembrar que seu trabalho junto aos drogados nas cracolândias do Brasil faz parte do seu objetivo pessoal, quando do seu ingresso no sacerdócio, e que tudo foi iniciado em 1976. De lá, para cá, ele também foi protagonista na promoção de movimentos religiosos, a exemplo da Renovação Carismática.


Por isso, nesta breve entrevista, você verá um homem de 100 anos falando sobre os segredos para viver bem e por muito tempo, bem como por temas como o seu legado, seus objetivos de vida, a expansão das comunidades terapêuticas no Brasil e outros assuntos do gênero.


Confira a entrevista na íntegra:


Quem é o homem e o padre Haroldo?


Padre Haroldo: Primeiro de tudo é preciso lembrar que sou padre jesuíta. Tenho o prazer de viver mais de cem anos com alegria. Desde o início de meu sacerdócio, tive o privilégio de trabalhar com meninos da rua, prostitutas, alcóolicos e drogados. Pude dar início ao “Amor Exigente”, Renovação Carismática, “Relaxe e viva feliz”, Yoga Cristã, “Treinamento de liderança cristã”, Fazenda do Senhor Jesus, Centro Kennedy, e várias casas para crianças drogadas, mulheres grávidas dependentes químicas e pobres de rua.


IA: Como a igreja e a comunidade terapêutica entraram na sua vida?


PH: Sou padre católico, com a finalidade de servir as pessoas sadias e as que têm problemas morais e financeiros. A comunidade terapêutica foi criada para dar tratamento e alimentação aos dependentes químicos. Em todos os lugares encontrava homens e mulheres, e também crianças bebendo e drogando-se demais.


Eles aceitavam minha ajuda material e espiritual. Muitos ficaram muito agradecidos, pois queriam sair daquela condição de vida, mas não encontravam uma maneira de fazer isto, sem ajuda de Jesus e Maria, com os doze passos dos Alcóolicos Anônimos. Até que muitos drogados passaram a se tratar na Vila Brandina, e conseguiram se recuperar muito bem.


IA: Quais desafios o senhor enfrentou para fundar a primeira Comunidade Terapêutica no Brasil?


PH: Verdadeiramente não havia grandes problemas. Porém, era preciso procurar profissionais como psicólogas e assistentes sociais competentes, além de outros sacerdotes que desejavam também trabalhar nesta área. Com os dependentes não havia maior problema do que conseguir que ficassem limpos da droga e do álcool. É muito difícil e heroico para estas pessoas desistir de beber e consumir drogas.


IA: Que avaliação o senhor faz da expansão das Comunidades Terapêuticas no Brasil?


PH: Estou muito contente pelo fato de haver muitas comunidades no Brasil e no exterior. Geralmente, todas as pessoas que ali se dedicam são honestas e trabalhadeiras. Só no Brasil nossa pequena comunidade se multiplicou em cinco mil pelo país afora. Tivemos amigos que colaboraram com muitos dólares para este apostolado. Graças a Deus, hoje em dia, o Estado brasileiro está ajudando financeiramente. Para a Igreja é um apostolado reconhecido oficialmente.


IA: Como o senhor descreveria o relacionamento entre as comunidades terapêuticas e o governo federal?


PH: O relacionamento das Comunidades Terapêuticas com o governo federal sempre foi bom e agora com o aumento de vagas do Ministro Osmar Terra mais pessoas poderão ser ajudadas por este trabalho.


IA: Qual o seu entendimento sobre a nova política nacional sobre drogas? Ela é suficiente para combater o flagelo da droga?


PH: Não estou acompanhando muito este assunto, mas considero que todas as ações para combater o problema das drogas são muito importantes.


IA: Em sua opinião, existe algum segredo para recuperar vidas do mundo das drogas? Qual?


PH: Não é segredo, é um fato: dar muito afeto e muito amor. Isto é muito mais importante do que as técnicas e metodologia. Como em outros setores da vida, todo mundo corresponde ao amor verdadeiro.


IA: Pode-se dizer que o Instituto Padre Haroldo é o seu maior legado e alegria?


PH: Servir a Deus corretamente é mais importante, mas entre as maneiras de servir. Para isto está a instituição criada propriamente para isto. E isto é da maior importância. É um fato: quando eu era jovem, e estudei para ser sacerdote jesuíta, eu o fiz principalmente para poder servir o meu irmão pobre e isto é o mesmo que servir ao próprio Deus.


IA: Com 100 anos, o senhor foi obrigado a se afastar de muitas coisas, inclusive dos acolhidos. É deles que mais sente falta?


PH: O que falta mais é o companheirismo de meus amigos drogados, que têm confiança em minhas palavras, nos meus conselhos.


IA: Para encerrar, qual o segredo da sua longevidade e que mensagem deixaria para a humanidade?


PH: Para viver cem anos eu acho que o segredo é servir a Jesus e Maria, e tentar viver honestamente e prestando atenção à alimentação e às exigências normais de sono necessária. Em uma palavra, ser honesto.




Por Sérgio Botêlho Jr. e Thiago Farias

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