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  • Sérgio M. Botelho Júnior

Novo Tempo: A CT que é obra da entrega de um casal à dependência química



Neste Carnaval, a reportagem de Imagineacredite se dirigiu até a comunidade terapêutica Novo Tempo, localizada nos arredores de Brasília-DF, para conhecer um pouco da sua história, dos seus trabalhos e das suas conquistas. A visita fez parte da série “Conhecendo as CTs”, do Portal Imagineacredite.


Ao desembarcar na Novo Tempo, a nossa reportagem foi recebida pelo casal de pastores Jeanete e Olímpio Souza. Eles fundaram a obra em março de 2013 e acabaram por dedicar as suas vidas ao resgate de vidas afetadas pela dependência química, porque os planos iniciais do casal contaram com um imprevisto.


“Inicialmente não existia a CT, porque nós cuidávamos dos jovens por meio da igreja, até que sentimos a necessidade de abrirmos uma comunidade com o objetivo de tratar pessoas que tenham problemas com dependência química. Na época, tínhamos um amigo e a nossa ideia era que ele tomasse conta, porque ele já tinha comunidade terapêutica, atuado em casos de recuperação e tinha o desejo.


Então nós fizemos de tudo para ele tomar conta, mas não deu certo”, contou Jeanete ao destacar que, diante do imprevisto, acabou desembarcando em Belo Horizonte, onde passou por um curso relacionado à comunidade terapêutica – do que era, como deveria funcionar e qual a legislação vigente. “Com isso a gente vai se apaixonando pela causa”, destaca.


Entregues ao propósito de cuidar dos dependentes químicos, o casal então funda a comunidade e divide as tarefas. Ela fica responsável pela parte administrativa, pela Laborterapia e pela gestão do curso profissionalizante de jardinagem, enquanto ele cuida da parte espiritual, sendo luz, sobretudo para os desprovidos de família.


No entanto, o cuidado com os acolhidos é uma tarefa compartilhada. “Nós dividimos a parte dos cuidados dos meninos, porque ele está sempre muito presente com os meninos, ele é quem os leva os meninos para o hospital, quando há necessidade, e fica com eles até a hora que for. Ele também atua na parte de aconselhamento e corre atrás de muitos documentos. Sem ele, eu não conseguiria tocar, porque tocamos essa obra juntos”, ressalta Jeanete.


O casal que é pai e mãe das vítimas da dependência


Em entrevista ao Imagineacredite, o pastor Olímpio Souza destacou que ele e Jeanete atuam também como uma referência familiar junto aos acolhidos, haja vista que devido ao uso de substâncias psicoativas, muitos dos acolhidos acabam chegando à CT com os vínculos familiares abalados ou sem eles.


“Nós sentimos que há uma necessidade muito grande relacionada aos acolhidos que é a questão da família. A gente percebe que a grande luta e a grande dificuldade vem de dentro da família e que quando a gente consegue dar direção, estabelecer ordem, a gente sente uma melhora muito grande deles. Muitas vezes, você consegue conter a rebelião colocando ordem, dando uma direção com amor e quando isso acontece, as pessoas entendem aquilo como um ato de amor e reagem bem. Tanto que se tornam mais sensíveis e acessíveis e acabam ficando mais juntos. Então a grande luta que nós temos é a falta de um contexto de família que estamos passando no país, é isso que tem trazido uma grande distorção para as pessoas”, argumenta.


E completa: “Nós trazemos uma referência que eles não têm e nós sabemos o quanto é importante a figura de um pai na vida de um jovem e que essa ausência traz um transtorno muito grande na vida deles: insegurança, falta de iniciativa, medo de encarar qualquer coisa. Então a gente sente que temos conseguido um sucesso muito grande em estabelecer esse vinculo. E o chamar atenção tem que ter um traço de que é um chamamento de quem quer o bem e eles percebem isso, até os animais percebem quando você fala com eles para o bem ou para o mal. Se eles perceberem que é uma direção para o mal, eles vão atacar, mas se for para o bem, eles vão obedecer. Isso acontece com o homem também”.


Um tratamento que respeita as liberdades individuais


Na comunidade terapêutica Novo Tempo, o tratamento de recuperação é considerado longo por durar entre 07 e 09 meses. Nesse período, os acolhidos passam por uma saudável desintoxicação, participam de atividades bíblicas, motivacionais, e de preparo para prevenir as famosas recaídas, bem como as famílias são preparadas para lidar com eles. Uma vez que estudos comprovam que um dependente químico é capaz de atingir até cinco pessoas ao seu redor.


Mas como funciona o tratamento? A Jeanete explica: “Quando eles chegam tem uma entrevista inicial, onde colocamos para eles o que é feito aqui dentro, e eles só ficam se concordarem com o programa. Nós temos aulas todas as tardes, temos os 12 passos que o AA, NA usam; temos uma parte voltada a prevenção de recaída; temos uma matéria sobre o conhecimento das drogas e seus efeitos no organismo; temos o Preparando o Futuro, onde são preparados os currículos deles; além de outras matérias motivacionais. Temos também a parte profissionalizante, com os cursos de informática e jardinagem.


Espiritualmente, a gente procura ensinar os caminhos ensinados pela palavra de Deus com a aula bíblica pela manhã, porque entendemos que sem Deus não conseguimos romper com nada. Então temos a parte espiritual que é ensinada, mas nada é obrigatório, eles não são obrigados a se converterem, mas eles passam a conhecer o que a bíblia ensina.


Nós temos também uma parte dedicada a educação física, para desintoxicar o corpo. Além disso, temos o Grupo de Orientação Familiar, onde trabalhamos para reestabelecer os vínculos familiares, e o Whatsapp, onde a família acompanha as atividades dos acolhidos aqui e recebe algumas mensagens e orientações”.


Mais uma CT beneficiada pela nova PNAD


Questionada sobre os impactos da nova Política Nacional Sobre Drogas (PNAD) e as ações desencadeadas pela Secretaria Nacional de Cuidados e Prevenção às Drogas do Ministério da Cidadania (Senapred/MC), Jeanete fez mais que uma avaliação positiva. “Essa nova política nos ajudou muito, porque não tínhamos um apoio muito grande e com os convênios, nós pudemos dar um acolhimento melhor para as pessoas, porque normalmente o dependente chega aqui sem nenhum suporte familiar. A família não tem condições de manter aquela pessoa e com a política do governo, muitas pessoas têm sido beneficiadas”, comemora.


Por Sérgio Botêlho Júnior