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  • Sérgio M. Botelho Júnior

Cláudia Leite: Priorizar a redução de danos foi um caminho de alto risco


Nos últimos dias, a reportagem de Imagineacredite entrevistou a Diretora do Departamento de Prevenção e Cuidados e Reinserção Social da Secretaria Nacional de Cuidados e Prevenção às Drogas do Ministério da Cidadania (Senapred/MC), Cláudia Gonçalves Leite. 

Formada em Direito, ela é dona de um currículo inteiramente dedicado ao combate ao uso de drogas e por isso é considerada o braço direito do Dr. Quirino Cordeiro Jr., com quem ao lado de toda a equipe da Senapred desenvolve um trabalho de excelência no tocante à prevenção, aos cuidados e a reinserção social dos dependentes químicos. Por isso, a nossa reportagem ela falou de diversos temas pertinentes ao assunto. 

Para ela, a política sobre drogas que vinha sendo desenvolvida nas suas primeiras décadas, apesar de ser nova, demandava de estruturas próprias que iam além dos campos da segurança pública e da saúde.  Uma vez que, em sua ótica, a questão do uso de drogas é algo extremamente complexo e que possui múltiplas facetas, as quais não têm suas respostas encontradas somente nas duas áreas acima listadas.

“O uso de drogas envolve fatores culturais, educacionais, familiares, psicológicos, emocionais, dentre outros. O usuário pode ser levado às drogas por influência do seu ambiente social ou pode ser levado às drogas por motivações eminentemente individuais. Particularmente, entendo que houve erros e acertos na política sobre drogas na última década”, avalia.

Diante de tamanha complexidade, ela disse ao Imagineacredite que considera a nova Política Nacional de Saúde Mental “um grande acerto que contribui efetivamente para a política sobre drogas”. No entanto, ela observou houve um grande erro na antiga PNAD, que acabou colocando vidas em situações de alto risco.

 “A priorização que foi conferida à política de redução de danos em determinado período foi um caminho de alto risco. Se estiver muito difícil resolver um problema, não significa que você deve se adaptar a ele, embora alguns nem considerem que o uso de drogas seja um problema. Porém, não considerar as drogas como um problema é uma posição claramente ideológica que não sobrevive quando confrontada com os fatos e as estatísticas referentes aos danos individuais e coletivos causados pelo uso de drogas”, salienta.

E completa: “Tivemos, enfim, grandes avanços em 2017 com a Nova Política de Saúde Mental, e em 2019 com a instituição da Nova Política Nacional sobre Drogas e a Nova Lei de Drogas, que, juntas, trazem uma nova perspectiva quanto à prevenção, ao tratamento, com foco na abstinência, e à reinserção social dos dependentes químicos em todo o país”.

Aliás, foi à nova Política Nacional Sobre Drogas que deu o merecido reconhecimento às comunidades terapêuticas. No entanto, infelizmente, este segmento ainda é muito criticado por grande parte da imprensa nacional. Neste sentido, Cláudia frisou que há problemas em todos os setores sociais e que não se pode condenar as CTs por casualidades. Uma vez que elas, na maioria das vezes, são a única esperança para milhares de dependentes químicos.

“Vejo que muitas vezes as críticas são baseadas em casos pontuais e descoladas da realidade. Se uma comunidade terapêutica é alvo de uma denúncia, alguns se aproveitam para tentar estigmatizar o trabalho de todas as comunidades. Porém, também há denúncias envolvendo hospitais, escolas, supermercados, restaurantes. Em todas as atividades há erros voluntários e involuntários. Mas proponho uma questão diferente: Há hoje no Brasil dezenas de milhares de dependentes químicos acolhidos em centenas de comunidades terapêuticas. Como e onde essas pessoas estariam sem esse acolhimento? Estariam tendo alguma oportunidade de enfrentar e controlar a sua dependência química com algum resultado efetivo? Como estariam suas famílias? Enfim, é evidente que as comunidades terapêuticas prestam serviços essenciais para a sociedade, são imprescindíveis para a rede de assistência às pessoas com dependência química e devem ser reconhecidas e valorizadas, como estão sendo pela primeira vez neste atual governo”, argumenta.

E é diante de críticas e grandes desafios, sobretudo em tempos de pandemia do novo Coronavírus (Covid-19), que a Diretora do Departamento de Prevenção e Cuidados e Reinserção Social da Senapred/MC se sente ainda mais desafiada, já que a sua principal missão no governo federal é apenas ser útil. 

“A minha principal missão é ser útil e colaborar para que a política pública sobre drogas seja cada vez mais efetiva e apresente cada vez mais resultados positivos, evitando, pelas ações preventivas, o crescimento do uso de drogas e cuidando e reinserindo na sociedade aqueles que se tornam vítimas da dependência química, bem como assistindo seus familiares. Claramente ainda não cumpri minha missão. Estamos apenas no início do nosso trabalho, que agora possui novos desafios com a pandemia do novo Coronavírus”, comenta.

Por falar em desafios, Cláudia destacou que se sente desafiada independentemente do seu gênero e aproveitou para ressaltar o respeito que o Governo Bolsonaro tem dado as mulheres na gestão. “No atual governo há muitas mulheres ocupando cargos estratégicos e técnicos de alta relevância, inclusive na Senapred e em todo o Ministério da Cidadania, e sinto que somos respeitadas. No primeiro escalão temos duas ministras que conquistaram papéis de protagonismo no Governo, as ministras Damares e Tereza Cristina. Então não estou sentindo um desafio maior ou menor no Governo Federal. É o desafio normal enfrentado sempre”, pontua.

Advogada mineira, Cláudia é especializada no combate ao uso de drogas no Brasil. Além disso, em sua trajetória pretérita à Senapred, em Minas Gerais, ela foi Conselheira Estadual de Políticas sobre Drogas, membro da Comissão da Câmara de Segurança Pública, membro da Comissão das Diretrizes de Atenção Integral ao Usuário de Drogas no âmbito das Políticas de Segurança Pública e Subsecretária de Políticas sobre Drogas.

Ainda em terras mineiras, Cláudia exerceu funções na Secretaria de Estado do Desenvolvimento Social, além de ter sido superintendente da Rede de Suporte Social ao Dependente Químico e Subsecretária Antidrogas. “Com a eleição do Presidente Jair Bolsonaro, tive a oportunidade de ser convidada para integrar a equipe do Dr. Quirino Cordeiro na Senapred, e aceitei o desafio, deixando a Subsecretaria em Minas em fevereiro de 2019 para assumir a Diretoria Nacional de Prevenção, Cuidados e Reinserção Social”, relembra a diretora que é uma das grandes defensoras da assistência as famílias dos dependentes químicos. Tanto é que ela tem encampado investimentos em grupos de mútua ajuda por meio da Senapred.


Por Sérgio Botêlho Júnior

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